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No dia 10 de julho de 1997, Felipe apresentou fortes
dores de cabeça e como as dores se agravaram seus pais o levaram ao Pronto
Socorro da cidade de Ponta Grossa. Lá o paciente é medicado com analgésicos e
após algumas horas é liberado. Dois dias depois, como os remédios não surtiram
efeito algum, Felipe é levado para o Hospital Bom Jesus, ainda em Ponta Grossa,
onde o paciente fica internado para exames que posteriormente indicariam,
através de diagnóstico do Dr. Derly Tizziani Ferraz, que Felipe tivera sangramento de um aneurisma cerebral e que seria necessária uma cirurgia de
clampeamento (clipagem) de aneurisma. (Esse procedimento
consiste em estancar o sangramento de um aneurisma através de um dispositivo
(clip). O tipo de material usado para a confecção desse dispositivo pode ser de
ferro magneto ou de cromo cobalto. Existem ainda outros materiais, mas que no
nosso caso não é necessário citar.)
A família ao ouvir o
diagnóstico, procura o parecer de um segundo médico e vai até o Dr. Vicente Milanese, que ao ouvir o relato e por se tratar de uma (micro-neurocirurgia),
sugeriu que Felipe fosse encaminhado ao Hospital das Nações, ao Dr. Ricardo
Ramina. Essa sugestão foi acatada pela família.
No
dia 14 de julho, o paciente viaja em uma UTI móvel para Curitiba a fim de ser
tratado, e é recebido pelo Dr. Ramina que, desconsiderando as recomendações dos
médicos anteriores, marca uma cirurgia de embolização para o dia seguinte.
Essa cirurgia não obteve sucesso e Felipe entra em estado de coma em seguida. (Na
embolização insere-se um instrumento cirúrgico em uma artéria localizada na
perna do paciente. Esse instrumento é guiado até o local onde existe o problema
para o preenchimento do aneurisma e conseqüente estancamento do mesmo.)
O
perito convocado pelo Ministério Público, Dr. Affonso Antoniuk, indicará em
laudo expedido para fins do processo, que esse foi um dos erros cometidos pelo
Dr. Ricardo Ramina. No final do texto da perícia, Dr. Antoniuk afirma
categoricamente que a rotura de aneurisma é patologia grave e requer intervenção
cirúrgica urgente. Afirma ainda que a embolização pode até agravar o quadro
clínico.
O
processo apresenta diversas contradições. Uma delas é que o exame físico geral,
conforme a ficha de internação do Hospital das Nações, emitida no dia 14, o
paciente chega sem déficit motor, ou seja, com todos os movimentos normais do
corpo.
Na
pg 68 do processo, o Dr. Ricardo Ramina afirma que Felipe chegou em Curitiba
com hemiparesia do lado esquerdo (movimentos lentos de braço e perna esquerdos),
paresia do membro inferior direito (perna direita paralisada), confuso e
desorientado. Somente nos últimos dias
de julho, é constatado que Felipe está com hemiparisia esquerda (movimentos da
perna e braço esquerdos lentos). No dia quatro de agosto, o paciente é
encaminhado, finalmente, à cirurgia de clipagem de aneurisma, procedimento
indicado pelos médicos de Ponta Grossa.
O
Dr. Ramina, após essa cirurgia, fala aos pais do paciente que Felipe ficaria em
torno de quatro horas em observação na UTI e logo após esse período iria para o
quarto. No entanto Felipe fica internado na UTI do Hospital por mais de 48 horas
conforme prontuário do Hospital das Nações . No processo, na pg. 609, Dr. Ramina afirma que o paciente ficou na UTI por apenas 24 horas.No dia sete de agosto,
três dias após a cirurgia, Dr. Ricardo Ramina visita o quarto de Felipe e fala
aos pais do paciente que no prazo de seis meses Felipe estaria em perfeito
estado de saúde, fazendo todas as atividades que realizava antes, e que no
próximo dia dez do mesmo mês Felipe teria alta. Nesse momento, o Dr.Ramina apresenta dois médicos à família, Dr. Cezar M.
Guiotoku e Dr. Wagner Munemori Mariushi e informa que eles ficarão responsáveis
pelo tratamento de Felipe, enquanto ele viaja a um congresso na Argentina.
Ainda no dia sete, o paciente andou no quarto (com hemiparesia esquerda, perna e
braço esquerdo com movimentos lentos) com auxilio de seu irmão, Ivo
Bittencourt Neto. Na noite desse mesmo dia (sete), Felipe
começa a passar mal. No dia seguinte o paciente apresenta fortes dores de
cabeça, vômito e suas pupilas estão dilatadas. Os
médicos, Dr. Cezar e Dr. Wagner reforçam e ajustam por diversas vezes a tala em
volta da cabeça de Felipe, que não suportando as dores, várias vezes a desloca,
obrigando os médicos a amarrarem o paciente na cama para que ele não mexesse a
faixa novamente.
Quando o
paciente conseguia deslocar a faixa, notava-se um sangramento no local. Por
volta das 18 horas, os médicos deixam Felipe a cargo das enfermeiras. À noite o
paciente passa muito mal e a família pede a presença do médico, que não vem. Felipe pede para morrer, as dores são muito fortes. As enfermeiras, por duas vezes, o medicam com analgésico e depois da segunda
aplicação, por volta das 22 horas, Felipe entra em coma profundo no quarto. A família assistiu aquelas cenas e suspeitou
que algo errado estava acontecendo. Os médicos residentes tinham sido orientados
a fazer a tomografia no dia oito pela manhã. Não fizeram a tomografia e optaram
por apenas enfaixar a cabeça de Felipe e medicá-lo com analgésicos. Percebendo
a negligência da equipe do Dr. Ramina, o pai de Felipe, Sr. Ivo Bittencourt, vai
até a secretaria e paga todas as despesas até dia 08-08-97.
Em
depoimento ao ministério público, pg 90 do processo, Dr. Ramina
afirma que o estado do paciente no pós-operatório estava mantido, que esse
estado era semelhante ao pré-operatório, ou seja, hemiparesia esquerda,
significando o sucesso da operação. Isso
é verdade, no entanto, Ramina já estava em viagem quando, no dia oito,
aconteceram os problemas.
No
dia seguinte, nove de agosto, às seis e meia da manhã, Sr. Ivo está à espera do
Dr. Cezar e quando ele chega, o médico é levado pelo pai de Felipe ao quarto do
paciente. Nesse momento o Dr. Cezar submete o paciente a uma tomografia
computadorizada do crânio, pg 113.
É a primeira tomografia depois da
cirurgia de clipagem. No
laudo pericial do Dr. Antoniuk, é destacado que a tomografia computadorizada
deve ser feita de rotina, após 24 horas, mesmo que o paciente esteja bem, e
repetida quantas vezes seja necessária. De
acordo com a denúncia de Sr. Ivo Bittencourt no processo, pg 78, o
Dr. Ramina deu instruções verbais e por escrito aos médicos da equipe
neurológica para que fosse realizada tomografia no quarto dia do pós-operatório,
ou seja, no dia oito e não no dia nove como aconteceu de fato. Imediatamente após a tomografia, Dr. Cezar conduz Felipe à sala cirúrgica. Ao
chegar na sala Dr. Cezar conversa com um médico, que depois de algum tempo os
familiares o identificam como sendo Dr. Ari Antonio Pedrozo. Esse profissional
informa que Felipe está com morte cerebral e que seria feita uma abertura no
crânio para ver o que teria acontecido. Transcorridos alguns minutos, Dr. Ari sai da sala de cirurgia e informa que os
médicos Dr. Cezar e Wagner estão preparando o corpo para entregá-lo à família.
No
prazo de aproximadamente uma hora, os médicos saem com Felipe às pressas para a
UTI, a fim de realizar os cuidados necessários. Os médicos relatam ao Sr. Ivo,
que deram estímulos cerebrais em Felipe e isso fez reverter o quadro
diagnosticado como morte cerebral. Na UTI é colocada uma
sonda alimentar e Felipe passa a respirar por aparelhos. Felipe está em estado
de coma e permanece assim por muito tempo.
Antes de prosseguir o
relato, é necessário voltarmos ao dia 22 de julho para entendermos o que se
passa a seguir. Nesse dia, Sr. Ivo é informado de que Felipe está com infecção
urinária e que esse problema é causado pela bactéria serratia.Em
conversa informal com uma profissional médica no Hospital das Nações, Sr. Ivo
fica sabendo que se essa bactéria atingisse o pulmão do paciente, fatalmente
causaria a morte de Felipe. Voltando à narrativa: no dia 12 de agosto, os familiares são informados que
Felipe está com infecção pulmonar generalizada. A bactéria serratia tinha
chegado ao pulmão. Aqui está outra contradição do processo. Na pg 828 do processo os
réus se eximem da responsabilidade pela infecção hospitalar afirmando que o
Hospital das Nações mantém uma comissão de controle. Voltam a afirmar que Felipe
teria entrado no Hospital já debilitado e que poderia ter adquirido essa
infecção fora do hospital.
A
partir daqui começa o tratamento para curar a infecção dos pulmões. Dois dias
depois a psicóloga Cláudia L. Menegatti do Hospital das Nações em conversa com a
família sugere que se despeçam de Felipe, pois ele não deverá agüentar vivo por
muito tempo e libera mais visitas na UTI.
Nesse dia, 14 de agosto, conforme pg.471 do processo, é
realizada a cirurgia de traqueostomia, ou seja, uma abertura na traquéia, onde é
colocada uma cânola (cano) para respiração. Alguns dias antes de sair da UTI, dois médicos, que não se identificaram
conversaram com Sr. Ivo e deram alta para Felipe informando que o quadro do
paciente era ‘estado comatoso’ e que não havia mais risco de vida. Sr. Ivo
decide não tirá-lo da UTI nesse momento. Isso acontece somente no dia 25 de
agosto, conforme pg 536 do processo. No dia 29 de agosto o Hospital suspende os medicamentos usados para curar a
infecção pulmonar, o que obriga ao pai de Felipe a comprá-los para continuar o
tratamento.
No dia
5 de setembro, Sr. Ivo toma a decisão de levar Felipe para casa devido a alguns
problemas que ele vinha percebendo no tratamento de seu filho no hospital. Sr.
Ivo no termo de declaração à justiça, que consta no processo, pg 78,
conta que houve troca de remédios e a supressão de parte da alimentação do
paciente. Nesse
dia a família sai com Felipe tendo o acompanhamento do Dr. Ramina e enfermeira,
curiosamente pela porta dos fundos do Hospital. Ao despedir a família, Dr.
Ramina entrega o resumo de internação
hospitalar, pg 467e 468 com algumas
datas alteradas. Nesse documento o médico declara que Felipe tem somente o ato
de piscar.
Em casa Felipe permanece em
estado vegetativo ou ‘comatoso’, fazendo fisioterapia motora e pulmonar com a
Dr.ª Andréa Busato desde o primeiro dia.Sr. Ivo fica intrigado sobre o fato de Felipe não conseguir respirar
naturalmente, tendo que usar o aparelho colocado na traqueostomia. Resolve
então, no dia 18 de setembro, procurar o otorrinolaringologista Dr. Francisco
Barros, na Santa Casa de Misericórdia em Ponta Grossa, o qual fez o diagnóstico
da Estenose traquial (cicatrização obstruindo a traquéia), devido à entubação severa realizada no Hospital das
Nações. Tanto
Dr. Francisco, como seu irmão que também é otorrinolaringologista e o doutor
Luis Eduardo Wambier confirmam que (aquela época) não existe tratamento possível para esse
caso.
Durante os sete meses seguintes Felipe fica em casa fazendo fisioterapia e
começa também a fazer tratamento fonoaudiológico com a Dr. Cíntia Regina Simão
Cenovicz. Nesse tempo começa a se comunicar através dos olhos e outros avanços
como abrir a boca, que estava cerrada desde a saída do Hospital das Nações. Em abril de 98, a família descobre uma
possibilidade de tratamento para que Felipe volte a respirar normalmente.
O
paciente é levado ao hospital 9 de Julho na cidade de São Paulo para fazer uma
cirurgia. A
partir daqui começa outra parte da história que se desenrola por quatro anos até o
dia 24 de janeiro de 2002, quando é retirada a última prótese traqueal.
Desde
essa data Felipe encontra-se com pouco domínio dos membros inferiores, o braço
esquerdo está praticamente paralisado, tem bom domínio do braço direito, perdeu
a visão do olho direito, tem o movimento de cabeça, tem movimento maxilar e se
alimenta sozinho usando o membro superior direito e fala com voz em volume
baixo.
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